Amor de Perdição restaurado através da ciência

A obra "Amor de Perdição" de Camilo Castelo Branco viajou do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, até à Biblioteca Nacional para ser submetida a uma intervenção de restauro. Apesar da obra não se encontrar em avançado estado de degradação, foi submetida à reintegração mecânica, um método inovador que permite restituir longevidade àquela que é considerada por muitos como uma das mais belas obras da Literatura Portuguesa.

Apesar da idade, a obra não se encontrava em avançado estado de degradação. As folhas estão amarelas e a tinta ferrogálica do Séc. XIX já corroeu parte dos fólios onde está gravada a história de Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, as personagens que dão vida ao “Amor de Perdição”, uma obra imortal de Camilo Castelo Branco e um clássico da Literatura Universal.

No seu envelhecimento natural, o papel sofre um processo de degradação da celulose que acaba por se traduzir naquele efeito amarelado característico das obras antigas.

Este livro foi escrito com tinta ferrogálica, que com o passar do tempo acaba por danificar o papel. Isto, aliado à má qualidade do próprio papel traduz-se no envelhecimento que acaba por provocar lacunas e rasgos nas folhas. Antes do restauro qualquer obra é submetida a um exame, um diagnóstico.

A limpeza por via húmida permite remover os agentes responsáveis pela degradação da obra que são solúveis em água. O hidróxido de cálcio serve para estabilizar o pH do papel e eliminar os agentes de alteração química e física. Com o passar do tempo o papel fica quebradiço. Um sinal que indica a degradação química da molécula de celulose que o constitui. Este trabalho de limpeza por via húmida é realizado manualmente fólio a fólio. Depois de analisado o ph, após a lavagem, os fólios são novamente lavados em água e é-lhes aplicada uma tela sintética, sem trama, que ajuda na agregação da polpa de papel.

De imediato são submetidos à Reintegração Mecânica, onde será depositada a polpa que vai preencher as lacunas ou rasgos. A integração mecânica realiza-se através da sucção, permite que a polpa de papel que está em suspensão, portanto em água, seja depositada, em todos os espaços de orifícios ou espaços de lacunas ou de rasgão. Portanto, o que se obtém é a reintegração de todo o suporte novamente para que ele possa ser manuseado.

Este método só pode ser aplicado a documentos em que a tinta não seja solúvel em água, de forma a que a sucção da máquina não altere as características codicológicas da obra. Quando são submetidas a vários tratamentos aquosos, os obras perdem a encolagem que dá o aspecto estaladiço ao papel. É necessário repor essa característica aplicando cola de amido de trigo, que funciona como agente alcalino. A Reintegração Mecânica tem vantagens em relação ao método clássico, mas é um processo que não se pode aplicar a qualquer documento normalmente é muito útil para a reintegração de livros que estão muito danificados por insectos biófilos, são insectos que se alimentam da própria celulose e que portanto fazem galerias no papel até ficar completamente rendilhado. Nesses casos, em que o livro tem quinhentas páginas e está completamente rendilhado, este é o método indicado porque manualmente seria muito moroso e dispendioso.Os fólios são agora prensados entre três camadas de papel mata-borrão que acelera o processo de agregação da nova fibra de papel depositada. O resultado final é surpreendente: a polpa aplicada fica da mesma cor e espessura do documento original. No entanto, a intervenção é perceptível a olho nú.

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